Enlatados

Eles nos chamaram de enlatados. Foi uma grande ousadia. Mas talvez devêssemos agradecer pela metáfora mal calculada.
Latas de conserva preservam. Impedem a decomposição. Mantêm o conteúdo íntegro, apesar da pressão do tempo e do ar. O que apodrece não é o que está guardado. É o que ficou aberto, exposto, entregue à atmosfera cultural do carnaval.
A lata existe por causa de algo valioso. Ninguém preserva o que não tem importância. Conserva-se aquilo que merece durar.
O que impede a decomposição é a estrutura, a ordem, os limites. São as fronteiras morais que atravessaram séculos, protegendo a civilização. Quando se retira da conserva, inicia-se a deterioração.
A fé cristã não é um fenômeno temporal. A Igreja sobreviveu a impérios, perseguições, modismos intelectuais e revoluções culturais.
A cultura do espetáculo vive de picos. Precisa de luzes, pirotecnias, volume, excesso. Vive de narrativas inflamadas. Mas o que sustenta uma civilização não são fogos de artifício. São fundamentos.
Depois que as luzes se apagam, o som é desligado e as pessoas vão embora, onde estão os acadêmicos de Niterói?
A história não se curva ao sambódromo. Na vida, há quem seja raiz e há quem seja apenas purpurina. E hoje especialmente existem pessoascom orgulho de ser degeneradas. Sua corrupção, perversao e depravacao não tem limites. Ou melhor: conservas.
Você que é cristão, não se ofenda. Todos estamos sob o juízo do tempo. E ele revela o prazo de validade das coisas. Os anos passam, e testemunhamos quem se dissipa como fumaça e quem leva consigo a eternidade.
E não se esqueça de permanecer na conserva. O ambiente lá fora é apodrecedor.
Texto de JB Carvalho
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